agosto 25, 2008

Última semana

Já enchi três malas só com tralha. Uma delas só tem livros, e deve pesar o mesmo que um elefante bébé, mais coisa menos coisa. Os livros que ficam (mais de cem) dei-os ao Edcarlos, um professor da escola primária local e irmão de um funcionário nosso, a única pessoa num raio de 100 km para quem um livro é mais do que combustível para acender uma fogueira. Veio cá duas vezes a casa e, em vez de olhar para a televisão ou para a aparelhagem, como todos os outros, dei com ele embevecido, com um brilhozinho nos olhos e a sorrir até às orelhas, a olhar para a minha estante, de cabeça de lado a ler os títulos e a dizer "ahhhh... tantos! E eu que só tenho sete... Olha, José Saramago!" Ganhou-me logo ali. Prometi dar-lhe todos os livros que não levasse e que podia pedir-me emprestados os que quisesse, e ele quase chorou. Nunca pediu nenhum, acho que por vergonha. Uma pérola. Fiquei de boca aberta quando ele me disse que na única livraria que existe em Parnaíba (uma cidade com 80.000 habitantes e 3 universidades...) só há porcarias - porque é absolutamente verdade, mas eu achei que mais ninguém tinha dado por isso.

Enchi mais duas malas com o todo o tipo de quinquilharia que já anda atrás de mim há anos (como milhões de fotografias, por exemplo) mais a que se junta inevitavelmente ao fim de 9 anos numa casa, e que sem a qual não vivo.

Paizinha1Dei mais de metade da nossa roupa e dos sapatos à Paizinha, que, à parte o desgosto, achou que lhe saiu a sorte grande. Também levou tecidos, a aparelhagem, o secador de cabelo, uma excelente, mas velhinha, Pentax que eu já não uso, o liquidificador, a batedeira, a varinha mágica (ela chama-lhe pau mágico), headphones, metade do stock da despensa e da arca frigorífica, roupa de cama e banho, tachos e panelas boas, carteiras, uma mesa com quatro cadeiras, etc. Quase parou de chorar, coisa que não consegue estar mais de meia hora sem fazer desde que eu lhe disse que volto para Portugal de vez, tadinha. Deixei-a com emprego certo e bem pago: fica cá em casa, com o inglês que nos comprou a fazenda, que se baba com os cozinhados dela - e que também já percebeu que, se a tratar mal, EU venho cá e trato-lhe da saúde. E dei-lhe dinheiro - mas obriguei-a a depositá-lo a prazo para que o bêbado do marido não o gaste todo num mês, além de a ter instruído para não lhe dizer quanto foi. A ida com ela ao banco para abrir uma conta, com hora marcada com o gerente, o Dôtô Beto (juro!), ela toda bem vestida e eu de chinelos (o costume...) foi um espetáculo. A expressão de orgulho dela - o gerente tratou-a por Dona Maria da Paz - pagou-me o dia. Aqui no povoado ninguém, mas ninguém mesmo, tem uma conta bancária. Ficou a rebentar de orgulho e morta de pena porque não pode contar a ninguém.

Solenemente, disse-me que, se puder, assim que os filhos mais pequenos estiverem encaminhados na vida, vai ter comigo a Portugal. Diz que não quer nada, que trabalha para mim de graça, que só quer um canto para dormir e a chance de aprender a cozinhar com a Dôna Rosa, empregada da minha família há décadas, actualmente em casa da minha irmã mais velha, e heroína da Paizinha. Por mim pode ir. É das poucas pessoas (ou a única) 100% sérias e trabalhadoras que eu conheci aqui. Tratou-me da casa e dos cães por quase 9 anos sem um reparo, cozinha ma-ra-vi-lho-sa-men-te e é um amor de pessoa. Confio tanto nela que lhe dei o código do meu multibanco e a mando levantar dinheiro por mim - bolas, o banco fica a 30 km! Recomendo-a sem reservas.

Bem, ainda falta arrumar a roupa. Uff!!!!!!!

17 comentários:

Teresa disse...

Que ternura, o professor e a Paizinha... Acho que ela ainda te virá cá parar ao colo, palpita-me..

Afinal nem tudo é mau no Brasil :) Amei este post.

Beijo.

FL disse...

Mas afinal quando tu chegas, pá?
Beijos

João Paulo Cardoso disse...

Gostei muito de ler o que li.
É um traço comum às irmãs Vidal, este o de dar cor às palavras.
Parece que estamos lá - quem dera - nos Açores ou no Brasil.
Bem-hajam!!

Beijos.

P.S : Não conheço a morena mas gostei de saber que a Paizinha ficou feliz com o seu pau mágico.
É o sonho de todas as mulheres.

ana v. disse...

Mil beijos à Paizinha, que está uma brasa! Merece tudo isso e muito mais. E como vai transformar-se num bom partido, ainda há uma esperança de que mande o marido bêbado para as urtigas... afinal, agora tem um pau mágico!

(JP, tinhas que tresler o pau mágico... como eu, claro! lol)

Pronto, deixem os livros mas tragam a caipirinha, que é o mais importante.

beijo

Terpsichore Tétis disse...

Gostei imenso de ler este post, Mad. Pode ser que a Paizinha agora consiga que o bêbado do marido deixe de o ser :)...os milagres também acontecem ...e com varinhas mágicas ainda mais... lol .


Ainda bem que pudeste fazer alguém feliz. Consigo imaginar muito bem o que tudo significa para ela.
Olha - pode ser que ela fique uma das poucas que passará a manifestar-se quando ouvir os brasileiros a falarem odiosamente e com o costumeiro desdenho pelos portugueses - como sabe quem sabe o que está por de trás. Tenho-os encontrado e ouvido aos montes aqui por estes lados.

Um beijo muito grato.

A exilada.

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Nada como a ternura deste post para nos alegra o dia.
E tao bom ver a alegria das coisas sinmples assim espelhadas nas pessoas simples, sem pretensoes.
Beijo e bom regresso

kiko b disse...

finalmente chegou a hora...não te esqueças do que pedi(nem que seja um talher da cozinha)...
e agora? o blog tambem acaba?e começa um novo? tipo - "juro que quero fazer qualquer coisa"

ps - aposto uns euros que daqui a 7 anos estás doida para sair de portugal(se calhar até mais cedo...)
boa viagem e a "trupê do chôpe" cá vos espera...
já agora, querem encomendar uma recepção no aeroporto do genero - " atenção que está a chegar o novo avançado do benfica e trás as medalhas olimpicas"

Mad disse...

Beijos a todos, que não tenho tempo para mais.

Kiko, esqueci-me completamente do que me pediste. Diz-me outra vez, HOJE, ou então por telefone.

Recepção só se for no Domingo de manhãzinha, quando chega a segunda tranche: o Preto mais a outra metade da canzoada (como dizia a minha oprima, somos tipo família real - LOL)

Bjs

Patti disse...

Linda essa Paizinha!
Também tive uma na minha vida, mas chamava-se Isaurinha.

Anónimo disse...

Mad, es de Grande Alma...adorei o que li, pois tudo isto parece simples de o fazer, mas ate faze-lo vai um grande passo!Parabens!Fazes felizes os que mais necessitam e merecem.

Quando falas da tua Rosa, lembro-me perfeitamente dela!Estou a visualisa-la em casa dos Palmelas a fazer rissois sempre muito bem disposta e com um ar de bondade unico!Mas ela ainda esta viva?
Pois eu era minima e ela ja parecia uma "avozinha"!!!Deus a preserve pois e uma instituicao.

...Mad,sempre que passo pelos Palmelas lembro-me dela.Foi uma marca para mim na infancia.

Anónimo disse...

o anomimo em cima e a Monica!

filos disse...

Querida, Mad!
Uma ternura a tua boa acção! Estou muito feliz com o teu regresso. Finalmente tenho-te por cá! Depois conto-te as novidades. Por favor diz quando já cá estiveres,e n te esqueças da ajuda que te prometi! Já vou trabalhar dia dois, mas um fim de semana arranjo sempre para uma amiga de mais de 20 anos! Adoro-te! Regressem bem

kiko b disse...

eu não pedi nada em especial...
somente uma lembrança da vossa casa.

ps - é que vi tantas e tão originais que...

kiko b disse...

eu não pedi nada em especial...
somente uma lembrança da vossa casa.

ps - é que vi tantas e tão originais que...

angela disse...

Tb gostei muito deste escrito.Alias não esperaria outra coisa de ti senão essa generosidade!
bjinhos e qdo chegares apita!
se precisares de ajuda por exemplo para desarrumares as malas conta comigo!
até breve...
ita

Anónimo disse...

Eu, que sou pessimista por natureza, ainda acho que te vais arrepender. Nao de saires do Brasil, mas de ires para Portugal. Pensa bem mulher... Melhor: le as noticias!

nf

cris disse...

mad, este post eh uma ternura. Gostei mm muito. Desejo-te um feliz regresso, sem ansiedades, que o Brasil continua no mesmo planeta que Portugal e seguramente voltaras a ver as pessoas que sao especiais e que nao regressam contigo.