novembro 16, 2007

O nascimento de um ditador


Para quem cresceu tendo a democracia como dado adquirido, que é o meu caso, ler o que se está a passar na Venezuela é uma experiência educativa. O regime que Hugo Chavéz está a criar não é só autoritário, como se propõe criar uma nação à sua imagem e semelhança.

Ele é o típico déspota sul-americano em potencial. Foi eleito por democraticamente* em 1998, mas acaba de alterar a constituição de modo a que esta se adeque perfeitamente à sua vontade: a centralização total do poder (já controla a quase totalidade dos meios de comunicação, entre eles 8 canais da televisão), a militarização do país e o desrespeito pela propriedade privada, além de ter aumentado o mandato presidencial e de o ter tornado renovável por tempo indeterminado.

Chávez é intolerante a opiniões divergentes e chegou a quebrar o sigilo do voto do último referendo, usando essas informações para punir opositores, cortando-lhes créditos pessoais ou negando aos seus familiares o ingresso em faculdades públicas, por exemplo. Controla a renda do petróleo pessoalmente (a reserva venezuelana é a sexta maior do planeta), assegurando o apoio popular através de projectos assistencialistas gratuitos, na área da saúde e da educação. Transforma as instituições públicas em ferramentas de uso pessoal, proibindo-as de contratar oposicionistas, e obriga as empresas privadas para fazerem o mesmo. Quer destronar a classe média-alta, importando por exemplo médicos cubanos, cujo diploma não é sequer reconhecido no país, mas que ganham 30% a mais que os venezuelanos. Criou as chamadas “universidades bolivarianas”, com o objectivo de formar a futura elite do seu “socialismo do séc. XXI” a partir da juventude mestiça com a qual faz questão de se identificar, para criar uma “grande nação mestiça”.

Com a nova reforma constitucional, que será aprovada ainda este mês (o único partido de oposição, o “Podemos”, que tem apenas 8 assentos no Parlamento, também é chavista), Hugo Chávez cimenta a criação das bases legais para um estado todo-poderoso que lhe assegura o poder absoluto a todos os níveis: administrativo (poderá subordinar militarmente os representantes regionais eleitos pelo povo), judicial (os tribunais já são controlados a 80%) e executivo (já domina as forças militares e de ordem pública e vai conquistar com esta reforma o direito de promover pessoalmente os militares que escolher), e económico, através do controle do Banco Central (que perde a sua autonomia, ficando sob a alçada directa do presidente), já para não falar do Artº 337, que decreta que “o presidente (...) poderá decretar o estado de excepção(...)”, o que lhe dá o direito legal de suspender, por tempo indeterminado, os direitos individuais e de imprensa sem outra justificativa que não seja o vago “interesse da nação”...

Chávez já age como déspota. Desrespeita tudo e todos os que, de algum modo, se atravessam no seu caminho. Já chamou burro e bêbado a George W. Bush e declarou em alto e bom som a sua intenção de invadir a Bolívia, se o seu amigo Evo Morales for afastado do poder. E há uns dias atrás, intitulou José María Aznár de fascista, na cimeira ..., e quando Zapatero defendeu Aznár, enquanto democraticamente eleito pelo povo espanhol, interrompeu-o repetidas vezes, fazendo com que o Rei Juan Carlos o mandasse calar – o que ele não ouviu, felizmente, o que teria provocado mais um incidente internacional. Mais tarde, dirigiu-se a ele nestes termos: "Señor Rey...", assim como quem diz: "ó Dona Condensa..."

Mas, para mal dos pecados de quem não o apoia, Chávez tem a adoração do povo venezuelano, se bem que não o apoio às suas acções políticas, que violam a propriedade privada e provocam calafrios ao militarizar o país. Além do carisma pessoal, como mestiço ele tem a “cara do povo” (um pouco como acontece entre Lula e os brasileiros, mas falando de história pessoal e não de raça), que, ignorante das suas políticas, pensa que ele dá voz aos pobres e vêem nele os valores morais, familiares e religiosos que mais prezam.

* Ou por aquilo a que a Venezuela chama "processo democrático"

9 comentários:

Fatyly disse...

Quem viveu na ditadura e agora em democracia, como eu...concordo com este teu post!

medusasss disse...

Estas viragens á direita um pouco por todo o lado têm-me deixado cada vez preocupada. Os valores da velha Europa estão decadentes, e não existe ninguém numa posição de força com legitimidade e vontade de os defender.

marta disse...

Mas Hugo Chávez de direita nãao tem nada, nem de esquerda, nem de centro.
Um ditador pode ser de qualquer cor.
Hugo Chávez será no mínimo grosseiro e malcriadao de cor.

para mim, e perece-me que ao contrário da maioria, não apoio o Rei Juan Carlos.
Dou-lhe a desculpa da impaciência da idade.

Mad disse...

Marta, Chávez como um rapaz malcriado, a interromper constantemente Zapatero, e o Rei só o tratou como tal, ao mandá-lo calar. Eu cá achei que ele mereceu!

tcl disse...

eu também gostei. por que carga de água há-de um gajo, lá porque é rei, manter a diplomacia e ter de ouvir todos os disparates do sr. chavéz? há alturas em que a qualquer um salta a tampa...

manuel teixeira disse...

Melhor ainda do que mandá-lo calar teria sido o Rey abandonar nessa altura o local do evento (seguido de Zapatero) como mais tarde acabou por fazer, deixando assim o Sr. Chaves a falar sòzinho.
(Pois é, eu sei, á posteriori é sempre mais fácil dizer que deveria ter sido desta ou daquela maneira). Teria sido também interessante ver se algum outro País os teria seguido.

Hugo Chaves: com um facies desses não enganas ninguém e só se pode esperar que continues a ser mais do mesmo, e que, enquanto te o permitirem, no te vas a callar...

Capitão-Mor disse...

Boa análise! Mas enfim, o homem grita desta maneira porque tem o solo do seu país a abarrotar de petróleo...

Mad disse...

Parece que estamos todos de acordo.

Capitão, agora com a nova jazida de petróleo brasileira, talvez o Chávez baixe a bola para estas bandas. Ou não: será que o etanol deixa de ser prioridade?

kiko b disse...

POIS EU ODEIO O CHAVEZ E O REI DE ESPANHA.
isto hoje em dia já não está para donos e senhores....é a globalização.
o tempo dos descobrimentos é para se lêr nos livros e as vinganças dos trisnetos e afins não são mais que interesses economicos pessoais...
juan carlos é o avô que trata tudo por "criada" e chavez é o neto do motorista que quer comprar a casa do avô...
e nós , desgraçados, a vêr a instabilidade a aumentar...
já agora, porque é que os iranianos não são severos com os venezuelanos que consomem e produzem droga, roubam e matam a vontade...abusam das mulheres? enfim são uns alarves a tentar ser europeus ou americanos a força.