outubro 25, 2007

A mitologia da bandidagem

Abaixo a mitologia da bandidagem é o título de uma reportagem da Veja desta semana sobre Tropa de Elite, o filme que está a dividir opiniões no Brasil. O filme, onde não faltam cenas chocantes, não rompe só com a tradição nacional de narrar a história do ponto de vista do bandido: rompe com a visão pia e romantizada do criminoso, segundo a mesma reportagem.

Na tradição iniciada com a adoração popular a Severino Lampião, o cangaceiro nordestino do início do século passado (e com muita pena minha, muito graças a Jorge Amado, que o transformou numa espécie de Robin Hood, quando a história não confirma de todo essa versão), e coroada com o ex-presidente Collor de Melo, que na década de 90 sacou 170 milhões de reais directamente das contas dos brasileiros e poucos anos depois foi eleito governador do estado de Alagoas, o povo brasileiro tem uma admiração nítida pelo bandido, conotando-o com um ideal de pureza e incorformismo perante uma sociedade podre, ao mesmo tempo que fomenta uma repulsa pela lei, considerando-a uma faca de dois gumes que serve apenas para aplicar aos pobres, mas que passa ao largo de polícias, políticos e empresários corruptos (vulgo ricos).

E exemplos não faltam: a mãe de 25 anos, pobre e moradora de favela, que atirou o filho recém-nascido ao rio depois de duas tentativas caseiras de aborto, foi julgada, condenada e presa. Nada mais justo. Mas todos os os brasileiros sem excepção apostariam o seu salário de um ano inteirinho em como Renan Calheiros, presidente do Senado, que está acusado de nada menos que cinco crimes, que vão desde o suborno à corrupção activa, passando pela fuga aos impostos e a espionagem aos próprios colegas com o objectivo de chantagem, não será preso. Claro.

Num país onde qualquer remediado com voz mais grossa é tratado por dôtô (há umas décadas era coroné...), o povo odeia os ricos, ao mesmo tempo que tudo o que deseja é vir a ser um deles. Não à custa de trabalho (credo!, tudo menos isso), claro, mas à custa da mega-sena (o nosso totoloto) ou – melhor, porque traz o bónus do reconhecimento social, o tal título de dôtô – à custa da carreira política. Sim, porque não passa nem sequer remotamente pela cabeça de um brasileiro que a carreira política possa ser motivada pelo desejo altruísta de fazer alguma coisa pela sua comunidade ou pelo seu país! Não, é apenas uma maneira – mais trabalhosa, mas infinitamente mais fácil do que dar o litro à boa maneira tuga, de enricar.

4 comentários:

ana vidal disse...

Quanto maior o atraso, maiores as desigualdades. E quanto maiores as desigualdades, maior a tendência para os mitos. É um ciclo fechado que só os poderosos podem romper, mas são os primeiros a tirar proveito da situação. O Jorge Amado limitou-se a retratar tudo isso, maravilhosamente, e o pior é que nada mudou muito desde aí. Que tristeza.

Fatyly disse...

Deve ser um filme bem controverso nesse país de grandes disparidades humanas.

Capitão-Mor disse...

Olha, apesar de me ter tornado fã do cinema brasileito que ao contrário da sensaboria das telenovelas, mostra um retrato fiel do país, não tenho interesse em ver este. Estou farto de violência pela violência numa terra onde pmuitas das vezes não se distingue polícia nem ladrão!

Mad disse...

Muitas vezes, Pedro? Sempre: aqui os polícias são ladrões com licença para matar impunemente.