
Quando dantes ouvia falar em violência doméstica achava sempre que era uma coisa muito abstracta que só acontecia lá para os confins do Portugalinho bem profundo, em sítios isolados pela geografia e o clima, e entre gente rude, bruta, ignorante, revoltada com condições de vida impossíveis, desgraças, recalcamentos e curriculum familiar a condizer.
Mais tarde aprendi que o problema é transversal à densidade populacional e às classes sociais. Que se manifesta tanto em aldeias perdidas nas serras como em centros urbanos. Tanto em camponeses brutos e alcoolizados há gerações como em gente civilizada que até ostenta nome pomposo, educação superior, carreira profissional sólida e conta bancária bochechuda. Se também carregam exemplo familiar que justifique o seu comportamento, não sei e nem me interessa. Provavelmente sim, não que seja obrigatório.
Hoje em dia, vindas de pessoas em cujo discernimento até confio, oiço descrições de cenas, dignas de Fellini, de tareias portas adentro, protagonizadas por gente a quem jamais ouviria dizer merda em público. Daquelas que deixam marcas que se cobrem com maquilhagem, golas altas e mangas compridas no dia seguinte. Daquelas que não têm justificação, explicação, sequer fazem sentido. Daquelas que se vê logo que começaram por um simples estalo, dado num dia de ânimos exaltados em que se perde a cabeça, e que evoluiu para cavalarias mais altas. Com a desculpa de que foi só aquela vez, coitado, eu até mereci - o caraças! Porque aquela vez é a pior de todas, é a porta aberta, é aquela do a ver se pega, é a prova cabal de que se se dá aquela se quer dar mais e se se aguenta aquela se quer levar mais.
Que raio de merda de psicologia é esta???
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