
Tinha saudades de fados, tinha mesmo. Isto de passar quase dez anos emigrada fez-me sentir umas saudades doidas da pátria, e por causa dela dos galos de Barcelos, das fadistices, das varinas, da luz de Lisboa, das oliveiras, dos malmequeres à beira das estradas, do cheirinho a alecrim. Nunca me senti tão portuguesa como desde que fui embora.
A noite de ontem foi pródiga em sentimentos contraditórios. Cantou-se muito, maravilhosamente bem e também malzinho. Falou-se pouco com quem se devia. Comeu-se decentemente, bebeu-se razoavelmente. A sala, mínima, estava cheia que nem um ovo já ao princípio da noite. E como foi chegando mais gente, chegou a um ponto em que parecia que não cabia nem mais uma agulha. E até a mim, que fumo como uma chaminé, me doíam os olhos. Mas fadistices são mesmo assim. O álcool faz mal à voz, dizem. Não acho nada, e que faz maravilhas à arte de representar é que não tenho mesmo dúvidas nenhumas.
Os reis da noite: o António, excelente como sempre (e que bonitos érres ele tem), e a Maria João Quadros, cuja voz portentosa me arrepia a espinha. Os Câmaras, chegados tarde e a más horas, deram vários ares da sua graça com a qualidade de sempre. O Nuno Aguiar pôs-nos todos a sorrir com a sua simpatia. E do resto, desculpem-me, não gostei nada: a Gaivota, o fado mais bonito do mundo, cantado por um canário - afinadinho, é certo, mas que mal se ouvia.
Mas soube-me a pato. Obrigada, António.
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