
M. (vamos chamar-lhe assim) foi meu colega de liceu. Casou-se com uma pequena bonita lá da terra, teve o casal de rebentos da praxe e, à custa de muito suor e lágrimas (segundo ele), lá foi construindo o seu pézinho de meia. Os filhos, já grandes, são bons alunos, a miúda a fazer-se à faculdade (caso inédito na família), o miúdo convidado pelo Sporting a ingressar no plantel de esperanças (é assim que lhes chamam?), a empresa de comércio de pescados a dar os seus frutos – já tinham cada um o seu carrito, ele um Mercedes, ela uma carrinha, telemóveis topo de gama, televisão digital, etc – , ele tratava dos clientes e das entregas, ela da papelada. E a coisa ia andando.
Até que decidiu expandir os seus negócios, ouviu dizer que era bom investir no Brasil e por cá apareceu, pelas bandas de Fortaleza, com recomendações para falar com “o maior armador do Nordeste”, um português, vamos chamar-lhe A., estabelecido em Camocim, grande (?!) porto de pesca no litoral do Ceará.
Ora, no dia em que o M. era esperado com pompa e circunstância, recomendado ao A. como “o maior comerciante de pescados de Lisboa e Vale do Tejo”, estávamos nós a preparar-nos para almoçar com ele, A., o tal “grande armador”, precisamente em Camocim. Há semanas que o ouvíamos falar daquele portento do comércio de pescados, secreta esperança para alavancar o seu próprio negócio, em sérios riscos de afundar (passe a ironia barata, mas irresistível).
E, qual não é o meu espanto, vejo a uma mesa o M. Olhámo-nos, primeiro com um vago reconhecimento (Eu conheço este de algum lado...), depois com incredulidade (Não pode ser!), e depois com um muito mal disfarçado incómodo (Será que ainda estou a tempo de disfarçar? Não. Vou ter que falar. Que seca.) – Mas o que é que tu estás aqui a fazer?!!! – enfim, o teatro costumeiro...
Entretanto, o A. mirava-nos como se fôssemos ET’s, raciocinando a todo o vapor – dava para ver o fumo a sair-lhe das orelhas – Conhecem-se bem. Isto pode ser bom e pode ser mau. Se ela fala, tou lixado. Por outro lado, ela pode dizer-me tim-tim por tim-tim quem ele é. Mas se ele conta metade da imagem que eu passei daqui, tou f...
Para resumir a novela, abstive-me de fazer comentários a qualquer um deles. Reclinei-me, apreciando o sempre interessante espectáculo de dois aldrabões de feira a enganarem-se um ao outro. Mereciam-se. Ficaram amigos do peito, como não poderia deixar de ser: pássaros da mesma plumagem reconhecem-se logo. E era vê-los, ridiculamente armados em teenagers, a pavonear-se pela beira-mar ataviados à moda: t-shirt justa cingindo a barriguinha típica de quarentões bem de vida, ténis prateados e bermuda pelo meio da canela, que lhes valorizava tanto o metro e sessenta e cinco de altura...
Quem ganhou o campeonato das aldrabices, ainda estou para saber. Parece-me que nenhum deles. O A. voltou a Portugal, onde consta ter um empregozito nada condizente com a grande frota de pesqueiros de que se intitulava “dono”, mas que nunca foram dele: eram alugados e ele não pagou sequer o primeiro mês de aluguer, assim como não pagou nunca o armazém, a fábrica, os dois jipões topo de gama, a renda da casa, as contas atrasadas de vários restaurantes e do supermercado, os fornecedores e, até, os salários, os impostos e a segurança social dos duzentos empregados.
Quanto ao M., pelo menos foi esperto o suficiente para não se fazer sócio do A., pelo menos no papel. Ainda vive em Camocim. Usufruiu, enquanto não lhos tiraram, da casa, dos jipes e do crédito nos restaurantes, e actualmente namora uma brasileirinha feiota, mas endinheirada e supostamente de boas famílias, cuja mãe, para mal dos seus pecados, não vai em cantigas e exigiu ao pretendente, como condição sine qua non para o casamento, provas cabais da grande fortuna que ele (ainda) alardeia ter em Portugal.
Quem perdeu mais nesta história foi a desgraçada da mulher do M., que ainda hoje, meses depois do marido ter largado Portugal de vez com todo o dinheiro que havia nas contas pessoais e da empresa (disse-me ela que nem a conta do telemóvel ele pagou, e era pra mais de mil contos!), trabalha doze horas por dia a servir à mesa num restaurante para pagar a hipoteca da casa onde mora, feita sem o seu conhecimento, as contas da faculdade da filha, da academia do filho e das dívidas ao IRC, que a carrinha e o Mercedes já foram retomados há muito por falta de pagamento...