
Mais uma vez, uma grande e velha amiga me descobre na internet ao fim de quase 20 anos sem nos vermos. E esta não é uma amiga qualquer (como se isso existisse!): é A amiga, a primeira, a de infância, a do berço.
Fazemos diferença de três meses e vivíamos a menos de 100 metros uma da outra. Fazíamos
tudo juntas. Começámos a andar, a gatinhar juntas. Mais tarde aprendemos a ler, a namorar, fomos para o liceu sempre, mas
sempre juntas. Parecíamos siamesas. Dormíamos permanentemente em casa uma da outra, às vezes nas duas casas ao mesmo tempo, pelo menos oficialmente, quando íamos a qualquer lado às escondidas dos nossos pais. Ou falávamos noites inteiras horas a fio, de lanterna acesa debaixo dos lençóis. Tivemos as primeiras noções de como se fazem bébes pelos livros didáticos que a mãe dela lhe comprava, que a minha não era nada dessas coisas, e com os que o pai dela tinha escondidos no alto da estante, esses para adultos, nada didáticos. Começámos a fumar juntas, encavalitadas no telhado da minha casa ou à janela do quarto dela. Éramos as melhores amigas do mundo, apesar de sermos quase opostas de feitio. Ela era toda menina, sempre de saias e meias até ao joelho, eu sempre de botins e capote à alentejana. Ela gostava de fazer tricot, eu de jogar ao berlinde. Éramos as duas melhores alunas da turma, mas ela era uma aluna exemplar e aplicada e eu uma baldas, que só não chumbava por faltas por um fio. Ela gostava de filosofia e de psicologia, eu de línguas, português e desenho.
Já no liceu, tivemos as primeiras paixões ao mesmo tempo, por acaso nunca pelo mesmo adolescente imberbe ou professor, apesar de que, se tivesse acontecido, eu ter a certeza que haveríamos de arranjar maneira de o partilhar pacificamente, como fazíamos com tudo o resto. Mas tínhamos gostos diferentes. A grande paixão dela foi um professor com ar de poeta amargurado, que pelo menos teve o mérito de a fazer descobrir o amor pela Filosofia que a envolve até hoje, a minha foi um professor loiro de olhos azuis, lindo de morrer, a quem, por mais que me esforce, não consigo atribuir nenhum mérito.
Depois casámo-nos, eu primeiro, ela depois. A última vez que a vi foi no dia do casamento dela. Eu já vivia em Cascais, ela mudou-se para a Marinha Grande. Nunca mais nos vimos, mas, de quando em quando, íamos sabendo notícias uma da outra. Eu separei-me pouco tempo depois, ela continuou casada por 16 anos, até há dois. A vida dá voltas estranhas e ela sofreu o pão que o diabo amassou. Tanto que, quando a minha Mãe morreu há meses atrás, não lhe contaram, porque ela a adorava e estava na altura numa fase péssima por causa da separação. Aliás, até as nossas mães eram
a meias para as duas.
Ontem falámos ao telefone e, assim como nos velhos tempos, foram horas seguidas. Por mim continuava, mas ela tinha que se levantar cedo. No sábado vou almoçar com ela e tenho a certeza que vamos passar a tarde a ver fotografias nossas de fraldas, ou mascaradas (ela de princesa e eu de índia), ou a passear de trenó na Serra da Estrela, ou com ar feliz da vida a posar com os
tais professores, e que, como sempre, vamos falar até nos doer a garganta.