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agosto 13, 2007

Os seus dias

Os seus dias são apenas uma sucessão de amanhã saberei, ou para o mês que vem isto vai-se resolver. Parece que nada do que fez nos últimos tempos contribuiu de algum modo para os próximos 20 anos da sua vida. Dá a impressão de que o decorrer do seu futuro está nas mãos de algum poder superior – de quem não admitirá a existência nunca – mas que parece controlar a sua vida como uma corrente inexorável que a conduz a um porto não sonhado e muito menos desejado, apesar de por vezes demais reconhecido em pesadelos.

O que é isto? Tem saudades de coisas ridículas, de que nunca tinha tomado conhecimento sequer da existência, quanto mais da importância. O cheiro da terra molhada no Outono e do ar poluído da cidade no Inverno, o barulho do mar no Levante e do trânsito de Lisboa à hora de ponta, o silêncio da Foz nas noites de semana. A frenética correria das pessoas voltando a casa depois de um dia de trabalho, a pachorrice dos alentejanos no Verão, a beleza das noites estreladas do seu Ribatejo e a sofreguidão de contacto humano dos que invadem o Bairro Alto nas sextas-feiras de Agosto.

De tudo isto sente falta ao mesmo tempo, de tudo isto tem saudades, umas saudades enormes, vorazes, que dão a sensação de a consumir como uma droga.

julho 28, 2007

Mar afora









A Ilha do Baleal é um daqueles sítios alcançados por bafo divino em dia de suprema inspiração, dona de uma beleza natural que, além de absolutamente estonteante, é originalíssima na costa portuguesa (digo eu, que não a conheço toda), e isto só do ponto de vista geográfico e não do resto (ao dito resto iremos, a seu tempo).

A Ilha, que não o é, sê-lo-ia quase se não estivesse ligada ao “continente” por uma língua de areia com duas praias – e aqui começa a originalidade, mas nem por sombras se esgota – que se enfrentam, mais que se admiram, mesmo em frente uma da outra.

Nós, os nativos insistimos em chamar-lhe Ilha, talvez porque há muitos anos quem a frequentava lembra-se bem de chegar ao Redondo e ter que esperar que a maré baixasse para poder atravessar, pois a maré cheia juntava as águas até quase se perder o pé, ou pelo menos até tornar perigosa a travessia, por causa das correntes fortíssimas formadas pela junção das duas águas. O que, aliás, acontece ciclicamente, e é só mais uma das suas originalidades: a Ilha comporta-se como se tivesse vontade própria, transforma-se quando lhe dá na gana, renova a sua imagem, redefine os seus caminhos, o tamanho das suas praias, a quantidade da sua areia, a altura das suas rochas até quase à véspera familiares, provavelmente para nos confundir, nos encantar ou simplesmente nos fazer reapaixonar pelas suas formas renovadas.

Nega sistematicamente – ou não fosse ela um espírito livre – todas as transformações feitas por mão humana, imperfeitas por definição e desígnio divino, como o famigerado pontão para passagem de carros, espécie de cicatriz de uma operação mal conseguida, quase todos os anos reparado porque o mar o enche de areia ou porque lhe tira tanta que lhe faz perigar os alicerces, como se a própria Ilha o rejeitasse como corpo estranho, coisa de tal maneira óbvia que nós, míseros mortais e pouco sabedores dos mistérios da natureza, não alcançamos à primeira vista. Ou talvez porque no fundo desejamos que ela realmente venha ser uma ilha perdida nas brumas, inacessível aos milhares de veraneantes atraídos como mariposas pelo seu brilho.

De um lado, a ilha oferece-se ao continente, generosa na fartura das suas praias gémeas – falsas –, uma de águas calmas mas perigosas, a outra de águas revoltas e correntes fortes mas previsíveis. Como a mente humana, aliás: toda a Ilha é uma analogia. E ainda nos oferece mais duas praias, uma escondida do primeiro olhar, por ser reduto antigo de barcos de pesca e por definição segura, protectora, aconchegante: a dos Barcos; e outra tão pequena que torna admirável o facto de ter sido baptizada: a das Cebolas, ainda que o seu nome não seja nem remotamente poético.

Do outro lado, aberta ao azul-cobalto, a Ilha mostra a sua face rebelde, gigantesca e sempre agreste, menos moldada às vontades humanas e imune a invasões. É o lado oceânico, com vista para as Berlengas, sua congénere longínqua e ao mesmo tempo ali tão perto, e para os Farilhões, ilhotas desertas e heliporto exclusivo de pássaros marinhos, a eterna inveja da nossa Ilha de alma eternamente selvagem. Ela aponta-lhes a sua proa cortante e abrupta, como se quisesse levantar âncora, imitando penínsulas saramaguianas na desesperada tentativa de se lhes juntar. A prová-lo a Ilha das Pombas, esta com I maiúsculo por direito próprio, rochedo virgem e rebelde que fugiu das saias da mãe, conseguiu desertar da cobiça humana e buscar uma vizinhança composta exclusivamente por seres marinhos, ou quando muito alados, e fez-se ao mar há já uns bons milhares de anos.

Ainda que de rocha pura, a Ilha tem essência marinha, feminina. É mais feita de mar que de terra – a prová-lo o facto de não haver uma única árvore em todo o seu território, nem mesmo um pessegueiro, ainda que de outros tempos, só tojos raquíticos que sobrevivem à custa de pura teimosia – quase como se criar raízes não calcárias fosse motivo de vergonha para uma ilha que se preze...

É orgulhosa, a nossa Ilha. Não nos quer lá – ou não nos brindasse com tempestades quase de granizo em pleno estio, e só aos parcos mas persistentes visitantes invernais concede raras manhãs ensolaradas, gloriosas, ainda que gélidas. Parece até que considera esta adoração de que é objecto um contratempo, uma contrariedade temporária de que se verá livre rapidamente – para ela o tempo é efémero e o seu não se mede pela mesma medida que o nosso. Uma vida humana é um décimo de segundo. A memória da geração anterior somada a uma vida de agora não é mais que um suspiro.

Talvez nos deixe construir casas porque as pintamos de branco, quem sabe as confunde com velas desfraldadas ao vento e conta com elas para sair mar afora, rumo ao pôr-do-sol...

julho 27, 2007

Bom preço


Quadros por pintar
Pedras por esculpir
Livros por escrever
Árvores por plantar
Filhos por fazer
E seis horas de tempo livre em cada dia.

(bom preço)

julho 13, 2007

O "meu" Baleal

fotografia da Carmo Formosinho (tirada daqui)

Pegando numa frase que pelos vistos anda a irritar muita gente há décadas (e eu que pensava que era só a mim), "o Baleal é nosso", repetida no hino até á náusea, proponho substituí-la por: o Baleal é meu. Meu. Como é de todos e de cada um a que vem à memória as aventuras engraçadas, carinhosas, brejeiras, amorosas, perigosas, proibidas, gastronómicas, alcoólicas – e mais uma dezena de adjectivos que não me vêm à cabeça agora – que lá protagonizou.

Como a todos os que lá vão desde a infância, os verões no Baleal marcaram-me a alma para sempre. A começar porque tinha que explicar muito bem às minhas amigas da escola porque levava para lá a roupa de inverno, que incluía samarras, camisolas de lã grossa e cobertores de papa, que naquele tempo ainda não havia edredons, e fazê-las acreditar que, mesmo com aquele frio desgraçado, aquilo ainda era – de longe! – o melhor sítio do mundo para passar as férias, uma espécie de reino encantado onde eu tinha dois milhões de amigos, andava sempre em bando e à solta o dia inteiro e só ia a casa para comer (quando não comia na casa mais próxima) e dormir, e onde tinha ordem para me deitar (pasme-se!) às 11 da noite, depois de vir do clube, um sítio que tinha bar e pista de dança e tudo.

Claro que eu passava o inverno inteiro a falar do clube, das brincadeiras, dos amigos, das olimpíadas, das idas ao mexilhão e aos camarões, dos passeios às Pedras Muitas, dos jogos de vólei na praia, dos passeios de barco nos dias de mar de chão, das experiências no surf que abandonei rapidamente por absoluta falta de jeito, etc. Nessa altura, a minha vida dividia-se em dois períodos bem distintos: os meses em que estava no Baleal e o intervalo em que sonhava em ir para lá outra vez.

Depois veio a fase, não menos importante, do primeiro namoro e o primeiro beijo (aos 11!), e mais tarde a primeira paixão adolescente, que ainda durou uns anitos, completamente platónica e não correspondida, mas de caixão à cova. Foi a altura das festas do clube, das saídas para o Greenhill e para as festas de Ferrel, as primeiras bezanas e os consequentes cantos gregorianos, as jantaradas na Foz ou em Peniche em grupos de 50 pessoas, as idas raras à concorrência (S. Martinho), as mais frequentes ao Voilá... E ainda mais tarde a primeira paixão de adulta, não tão platónica e muito mais correspondida... e um milhão de outras histórias interessantes que ainda hei-de escrever (nas minhas memórias, entenda-se, não aqui).

Depois, como muita gente, cansei-me da pequenez da ilha, dos eternos mexericos, dos horizontes percorridos vezes demais, e rumei para outros portos. Chegou uma altura em que a ilha me sufocava e, apesar de morrer de saudades dela, já não aguentava as tacanhices de sempre.

Nunca deixei de lá ir, sempre no inverno, a minha altura preferida de sempre. É nessa altura que tenho a ilha só para mim e que percebo que as raras pessoas conhecidas que encontro lá (o Tomaz é uma delas) a vêem como eu a vejo. Deserta, linda, gelada, iluminada, encantadora, húmida, ventosa, chuvosa, silenciosa de gente e gritante de gaivotas, cheia de mar, de areia e das rochas que ainda conheço de cor, em toda a sua glória.

O Baleal é meu – mas o Baleal de inverno.

julho 09, 2007

Hoje estou assim

Hoje estou muito bem-disposta, coisa que raramente tem acontecido nos últimos tempos. E apetece-me tentar “pegar” isto a quem me ler. Como já escrevi há uns posts atrás, sou de opinião que ninguém é feliz sempre, mas que se pode ir sendo feliz, presenteando-nos com alguns mimos de vez em quando.

Por exemplo, não fazer nada é uma arte que pode ser muito agradável. Eça de Queirós sabia o que dizia quando escreveu que “o ócio é a mais absorvente de todas as tarefas”. E se não nos apetecer não fazer nada, pode-se sempre namorar, passear descalça, jantar com os amigos, ler bons livros, ouvir boa música, dormir a sesta numa rede, descobrir os prazeres da culinária, dar banho aos cães e acabar mais encharcada que eles, irritar o gato até ficar com umas cicatrizes que provam que isso não é uma coisa propriamente muito sensata para se fazer, enfiar as unhas na terra do jardim, escrever, alimentar o blog com parvoíces e verificar que até há gente que lê, etc.

Se nada disto der resultado, o melhor é aprender a aceitarmo-nos como somos, até porque não há nada a fazer, explorando o melhor que temos e “disfarçando” o pior. Todos temos defeitos, todos fazemos birras, mas, acima de tudo, todos temos coisas boas, únicas e originais.

Fazer e dizer o que nos apetece, mesmo que isso pareça um disparate, é outro luxo incrivelmente saudável. E então quando a nossa cara-metade coopera e ainda por cima acha graça, é divino.

Finalmente, acreditar firmemente que as pessoas pertencem a duas categorias: os bons e os maus. E que, obviamente, fazemos parte do primeiro grupo, o que nos dá o direito inato e indiscutível de ser felizes, já para não falar do bónus de poder fazer algumas maldades aos maus. O objectivo a atingir é acreditar que tudo é permitido e nada é impossível.

Se mesmo assim, nada disto der resultado, experimentem umas caipirinhas. À terceira é certinho.

Coisas que absolutamente a-d-o-r-o (1):

Pequeno-almoço (leia-se: uma caneca de café e um cigarro aceso) na cama;
Uvas e nêsperas descascadas;
Lençóis de linho numa cama de colunas;
Duzentos beijinhos seguidos;
Darem-me flores;
Feiras, barracas e afins;
Passear de barco à noite na barragem de Sta. Clara;
O mar;
Tudo que é de vidro;
Os meus bichos;
Que os meus cães me lambam os pés;
A minha casa em Portugal;
Portugal;
Livros de cozinha;
Italianas (estou a falar de café);
Começar a ler um bom livro e saber que ainda me faltam 300 páginas para acabar;
Pink Floyd, Barclay James Harvest, Supertramp e Genesis aos gritos;
Ouvir o melhor álbum de todos os tempos, “Ella sings Brazil”, às escuras;
Ouvir reggae numa praia ao fim da tarde;
Caetano, Bethânia, Norah Jones ou Desree quando estou neura, Paco de Lucía ou Amália quando estou nostálgica e Fleetwood Mac ou Sade Adu quando estou saudosista;
Salada de polvo e vinho branco estupidamente gelado, no Meco com a Kika ao fim da tarde;
Os fins-de-semana de Inverno na Zambujeira;
Os acampamentos – fogueira, marisco, delírios alcoólicos da Kika, piadas do Gonçalinho e tachadas de massada de peixe mais jarros de caipirinha aos pares feitos pelo dono do Aqui Há Peixe incluídos – na praia da Comporta;
Os fins-de-semana calmos com o Zé e o Luís em Marvão;
Whisky, sangria e gin tónico;
Favas com chouriço preto e scones feitos pela Rosa;
Salmão fumado com pão, manteiga e limão ou Camembert à Bulhão Pato (!) da minha sogra;
Os meus copos de biquinhos de todas as cores que trouxe quase às costas para o Brasil;
Ter fluidez na minha escrevinhice;

(a continuar)

Coisas que me pôem doente de irritação (1):

Dizerem-me uma palavra que seja antes da minha primeira caneca de café de manhã;
Roupa espalhada pela casa;
Fecharem-me sem gravar os documentos que tenho abertos no computador;
Fecharem-me o livro que estou a ler sem marcarem a página;
Perguntarem-me se estou bem mais de duas vezes seguidas;
Não me ouvirem quando preciso e falarem, falarem, falarem...;
Beatas apagadas em copos;
Copos dentro de pratos sujos;
Pedirem-me qualquer coisa no minuto em que começo a ver um programa de televisão que adoro;
Pensar o dia todo em coisas interessantes para escrever e não me sair absolutamente nada quando finalmente me sento;
Falta de pontualidade e – pior! – não avisarem a razão do atraso;
Interromperem-me os pensamentos com banalidades;
Conversa de chacha;
Gente burra;
Gente incompetente num trabalho fácil (como servir à mesa);
Estar a contar muito com uma coisa e ela não acontecer, sem razão válida;
Bêbedos, chatos, burros e bêbedos chatos (os burros são os únicos que têm desculpa);
Legendas mal traduzidas num filme;
Verificar que me esqueci de carregar o telemóvel;
Não ter dinheiro;
Não ter tempo (não acontece muito...) ou apressarem-me;
Ter que explicar uma coisa básica dez vezes;
Encomendar uma coisa e chegar outra completamente diferente;
Não me devolverem livros que emprestei;
Dizerem-me que não emprestei livros quando eu sei que sim;
Gente que não aprecia uma boa discussão (no sentido de troca de idéias) e que leva a peito quando estamos a discutir temas gerais;
Forró, The Cranberries, Sinead O’Connor e os Madredeus;
Chegar ao fim de um bom livro;


(a continuar)

junho 21, 2007

Insónia

São onze da noite, hora em que a casa fica em silêncio e o tempo, suspenso, parece outra vez inteiro e todo meu. Não há perguntas nem exigências, faladas, miadas ou ladradas.

É a esta hora que me dói mais a ausência dos outros, que sinto mais a distância do quarto de mundo que me separa do meu outro mundo, o tamanho enorme do meu tempo, a minha insónia desperdiçada, as saudades de quem não voltarei a ver.

A esta hora a solidão deixa-me marcas, as saudades cavam-me rugas que ficam gravadas na alma. Entristeço ao pensar que a vida dos outros continua a correr sem mim. Uma réstea de optimismo diz-me que tudo isto serve para fortalecer o carácter, mas que se lixe o carácter.

Está a chover. Está a chover tanto, que o céu parece cair inteiro sobre o meu telhado, num dilúvio de proporções bíblicas que ameaça durar a noite toda e transformar a casa numa ilha.

Hoje sou uma ilha dentro de outra ilha.

A vida é bela?

Estou fechada no meu mundo, por muito pouco pequeno que ele seja. E estou a ficar sentimental com a idade.

Se vejo um programa de televisão sobre um casal que comemora as bodas de ouro com os filhos e os netos, os meus olhos enchem-se de lágrimas. Sinto a mesma coisa por atletas deficientes que acabam a maratona, bombeiros que salvam criancinhas de incêndios, velhotas das berças que sorriem sem dentes, obesas que perdem 150 quilos, cegos que conseguem diplomar-se e pessoas que dão a volta ao mundo sózinhas em veleiros de dez pés. Notícias de mortes, epidemias, tsunamis, terramotos e outros horrores não me afectam, mas boas notícias transformam-me numa piegas assumida.

Será porque vivo num tédio tremendo?

É uma vergonha. E imoral e humilhante. Imoral porque qualquer pessoa que tivesse tudo o que eu tenho devia ser feliz, e humilhante porque evidentemente não o sou, e a conclusão lógica é que a culpa deve ser minha. Deve ser falta de recursos interiores. Nada que 2 ou 3 filhos não resolvam.

A vida é bela? Talvez, mas nunca a nossa.

Uma vista deslumbrante

Uma amiga minha apaixonou-se perdidamente... por uma vista deslumbrante de um apartamento em Lisboa. E apaixonou-se assim como quem cai num buraco no chão, num sítio que ainda na véspera era sólido. Como não a podia comprar, tomou-a emprestada durante uns meses.

Era uma janela altaneira, rasgada sobre a cidade e o Tejo. Com um horizonte líquido, infinito, que se estendia à volta dela. Ouvia-se ao longe o apito cavo dos navios pesados a cruzar a barra, e ao perto a azáfama habitual de um porto onde chegava gente e mercadorias do mundo inteiro.

Onde ela se sentava não existiam paredes, apenas vidro. Um vidro de dez metros. Ao entardecer, já com o sol rasante, a magia era outra. A ponte transformava-se numa estructura encantada, cheia de luzinhas que avançavam vagarosamente em meio às brumas. O rio, durante o dia de um azul banal, igualava-se em cor ao céu e passava por mil tons de laranja cada vez mais escuros. E no momento em que as luzes da cidade se acendiam e que a água ficava mais negra que o céu noturno, apareciam as primeiras estrelas.

O dono da vista, Bruno (vamos chamar-lhe assim) era um playboy. Um playboy barato, mas ainda assim um playboy. Designer (a profissão até tinha pinta...), trabalhava pouco, mas pelo menos era por conta própria. Claro que nunca tinha atrás de um cliente na vida: a mãe, funcionária pública, representava 100% dos seus clientes, facto que ele não gostava muito de mencionar. Ela pintava umas telas e fazia umas exposições, orgulhosamente patrocinadas pelo marido, director de um laboratório farmacêutico de terceira linha. Os avós – uns amores – eram da mais pura (e muito low) casta de Alfama, e todos, sem excepção, apostavam no Bruninho para subir na vida.

Ele, o playboy, tinha dois trunfos. Um por mérito próprio – o tal apartamento, que tinha tido a sorte de conseguir arrematar barato num leilão público – e outro por desígnio de Deus – uma criança deliciosa, filha de uma aventura chamada Cátia Vanessa ou algo no género, mas com um nome inaceitável para as suas ambições sociais, tipo Nelson, Ruben ou coisa que o valha, e que ele muito convenientemente tratava pelo segundo nome. Novo-rico e nada parvo, tinha plena consciência de que o que lhe faltava era exactamente o meio de ascenção social. Como consegui-lo? Através de uma namorada benzoca, sem muito dinheiro, e que ainda se impressionasse com T2 de 300 m2, carros rápidos e jantares caros (ela, por pura pirraça, fazia questão em que o fossem, mas não era fácil: o Bruninho não gostava de abrir os cordões à bolsa). Difícil de conseguir, mas não impossível, para um Bruno da vida, que não era feio de todo, vestia roupas de marca, andava de BMW e até nem primava pela idiotice. Com o tempo, pedia-la-ia em casamento – mulheres não conseguem resistir a um pedido de casamento, certo? Errado.

Ela embriagou-se até não poder mais com a vista para o Tejo e, meses depois, quando achou que já a gravara na memória de tal maneira que a conseguia ver mesmo de olhos fechados, negou redondamente o desesperado pedido de casamento e fugiu a sete pés. O ritual mágico de ver a cidade acordar aos seus pés todas as manhãs fazia-a sonhar com horizontes longínquos, mas daí a casar... só se fosse com a vista.

Ele ainda apareceu algumas vezes à sua porta – umas suplicante, outras armado em parvo –, quando ela (azar dos azares!) tinha acabado de conhecer o amor da sua vida, inteligente, aventureiro, lindo de morrer, pelintra, com quem vive até hoje, e que não possuia uma vista nem sequer apartamento próprio, mas que trazia nos olhos verdes a promessa de a levar pessoalmente aos tais horizontes.

O significado da vida?

Como cantavam os Barclays James Harvest, ‘life is for living and living is free’.
Para uma mente sã, o simples facto de estar vivo deveria ser suficiente. Mas não há mentes sãs. Pelo menos, não sempre. Todos temos períodos temporários de insanidade mental, o que, ao mesmo tempo que nos pode livrar das tão temidas depressões, nos provoca neuras, por vezes monumentais.

Somos humanos. Viver não chega. Amor e uma cabana soa bem, desde que a cabana tenha ar condicionado e seja em Bora Bora. Ou seja, é preciso viver bem. E não, não estou a ser sarcástica (não muito...). Podemos ter tudo, mas se não tivermos o suficiente, somos obrigatoriamente infelizes. E o insuficiente pode ser tudo. E não ter tudo pode ser a mesma coisa que ter coisa nenhuma.

Conheci há dias uma brasileira, bonita, rica, muuuuito bem sucedida profissionalmente (juíza do supremo tribunal, um dos melhores cargos públicos a que se pode aspirar no Brasil), casada com um advogado suíço reformado e com dois filhos de um casamento anterior, com uma casa supostamente óptima na cidade e outra (esta vi eu) linda, à beira de uma lagoa. Visto de fora – e apoiado pela atitude dela à entrada, do tipo chéguêi! -, parecia ela que tinha tudo aquilo que a maioria das pessoas pode desejar. Mas, assim que bebeu uns copos (nove!, notem, NOVE!!! caipirinhas – e depois eu é que bebo!!!), brindou-nos com uma crise existencial daquelas cinematográficas, com uma banda sonora bem documentada por uma dezena de motivos do tipo “tenho uma borbulha no nariz”, que, dado o currículum da menina, todos achámos insignificantes. Para mais, segundo disseram as más línguas (profusamente presentes na ocasião, diga-se de passagem...), as nove caipirinhas eram perfeitamente habituais (!).
Moral da história: nunca nada chega? Ou há gente que nunca está contente com nada? Bolas!
Bem sei que a felicidade não existe, vai existindo. Não é um estado, é feita de momentos. Não se é, está-se feliz. Etc, etc, etc...

O significado da vida? Só pode ser vivê-la. Porque se for mais do que isto, é o quê, alcançar a santidade?

Aaaaaaaargh!!!.......................

junho 14, 2007

A simplicidade feminina

Depois de um telefonema compridíssimo de uma amiga que não tive tempo para ver enquanto estive em Portugal, e que tinha acabado de chegar de um congresso em Paris, apetece-me mandar ao diabo o facto de não gostar de clichets e afirmar, em alto e bom som, aquilo que toda a gente sabe há milénios:

Os homens não entendem as mulheres!

E nós somos um livro aberto! Basta prestar um mínimo de atenção para saber o que nos vai na mente e no coração. Mas, como não costumamos dizer o que pensamos – e os homens não costumam perguntar... – a confusão instala-se.

Precisamos de nos sentir queridas o tempo inteiro. Não há sensação melhor que entrar num restaurante e sermos notadas, seja pela beleza, pela roupa que vestimos, por levarmos um exemplar de Les Misérables debaixo do braço (fica sempre bem), ou, em última instância, pelo homem que nos acompanha – qualquer coisinha serve. E nem é preciso que quem nos nota seja o George Clooney. Se recebermos um piropo de um operário, por mais ordinário que ele seja, já nos achamos o máximo!, mesmo tendo que mostrar o ar escandalizado da praxe...

A obrigação de qualquer homem é notar a mulher que está com ele. Se a notar, tem a papinha toda feita. Esta minha amiga contou-me que encontrou um colega de profissão no avião para o tal congresso, que nem cinco minutos depois da descolagem se atirou a ela de uma forma tão descarada que a deixou sem reacção. Ao notar isso, ele mudou radicalmente e concluiu: “Bem, já fiz a minha obrigação. Agora não não se fala mais nisso.” E portou-se lindamente durante o resto do congresso. Um querido, convenhamos. Com uma certa falta de jeito, mas um querido.

Noutra ocasião, ela conheceu outro homem num jantar bem regado. Achou-o convencido, desinteressante, mas mesmo assim (às vezes acontece) acabaram na cama, em casa dele. No outro dia de madrugada, enquanto ele ainda dormia ferrado, ela levantou-se na ponta dos pés, arrebanhou a roupa, os sapatos e a carteira, esqueceu-se dos brincos (e falem-me de atos falhos!) e saiu em bicos dos pés. Depois de um café e duas aspirinas, ela não sabia se havia de mudar de cidade ou só de telemóvel. A farra não tinha sido má de todo, mas ele não interessava nem ao Menino Jesus...

Mas passou o dia e ele não ligou. E ela começou a ficar nervosa. Não que o quisesse ver outra vez, mas por amor de Deus!, ele tinha obrigação de ligar. Mas nada. Que raiva! Tentou justificar-se por ter saído de casa dele sem nem sequer deixar um bilhetinho. Pelo sim pelo não, vestiu qualquer coisinha bem simples para o caso de ele lhe aparecer em casa e ela ter o ar de quem não estava nada à espera. Mas ele não apareceu. E a coisa começou a azedar. A não ser que ele tivesse tido um infarte, não havia explicação! Lá bem no fundo, ela não lhe conseguia perdoar o facto de ele não ter aparecido esbaforido à sua porta, com um ramo de rosas obscenamente grande, a dizer “eu TINHA que te ver!”... E como ele não deu uma demonstração de que aquela tinha sido, inequivocamente, a noite mais fascinante da sua vida, ela ficou a odiá-lo como só uma mulher é capaz, ao mesmo tempo que daria uma perna para que ele tivesse ligado.

Moral da história: custava alguma coisa ele ter ligado (nem que fosse para dizer que ela se tinha esquecido dos brincos...) e então desaparecer, depois de a ter feito sentir que era o máximo? Não custava. As mulheres são assim. Siiiiimples.

junho 12, 2007

Aos meus amigos

Obrigado por existirem e serem exactamente como são. Não vos quereria diferentes, nem mais gordos, nem mais magros, nem mais bonitos nem mais feios, mais espertos ou mais estúpidos, mais bem sucedidos ou mais pelintras, mais pirosos ou mais queques, mais generosos ou mais forretas, mais novos ou mais velhos, ou diferentes do que são. Po r me darem força quando eu preciso, por me puxarem as orelhas quando eu me estico, por me darem palmadinhas nas costas quando eu faço asneiras, por me segurarem quando eu caio, por me empurrarem quando eu preciso de cair. Por estarem onde estão, mesmo que seja a milhares de quilómetros e às vezes por fazerem essa distância parecer um metro, por me verem a alma ao telefone logo no ’tou? e mesmo antes de atender, por me abraçarem até me doerem mais as costelas que a alma, por me porem sacos de água quente no coração, por me terem secado tantas lágrimas, tanto as de dor como as de frustração, aturado as fúrias, as birras, os fanicos e as bebedeiras, e por me trazerem de volta a casa sempre sã e salva.
.

junho 11, 2007

Objectos de desejo

Antes de mais, sou humana. Por mais posts sobre virtudes que faça, volto a afirmar: sou humana. Eis algumas das coisas que eu quero TANTO que às vezes me dói a alma (e que me fazem sentir tão culpada que me sinto compelida a fazer um post sobre caridade, voluntariado e virtudes, a sair brevemente):

- Uma ilha só minha com uma casa não muito grande, feita de madeira, com redes nas janelas em vez de vidros, uma casa-de-banho em que as torneiras são nautilus e a água do chuveiro cai de uma tridacna; um laptop demoníaco e acesso à internet; a varanda do meu quarto tem que dar para a areia da praia; pode ser nas Caraíbas - é perto e posso receber visitas; pelo menos quatro bungalows, para receber os amigos; uma cama de 2 metros de largura com lençóis de linho com o meu monograma - noblesse oblige...; Ahá!, e uma empregada todas as manhãs (ninguém é de ferro...);
- Um veleiro, não muito grande, em que eu possa dar a volta ao mundo e demorar pelo menos 2 anos, onde têm que caber os meus livros preferidos, um berço para uma filha (ainda em projecto), uma garrafeira; e, se tivesse que escolher uma planta, um vaso com uma sardinheira;
- Uma lanchinha a motor – dá jeito nem que seja para fazer ski ou para ir fazer compras à ilha mais próxima;

- Equipamento de mergulho para dois;

- Material de pintura, escrita, escultura, bijuteria, fotografia, etc. (e de mais 200 hobbies a que me vou dedicar nos próximos tempos – sou tão aquário que até a mim me irrito...) à discrição, para me entreter;
- Uma cocheira com dois cavalos;
- Uma pick-up – pode ser velha;

- Vizinhos (europeus, por amor de Deus!) noutra ilha, a pelo menos 1 hora de barco;

- Ahá!, acções da Microsoft ou alguma empresa do género, para pagar tudo isto (bem me parecia que faltava alguma coisa...)

A estação do desejo

Acontece todos os anos, mas parece sempre um presente especial dos deuses. Céus de mil tons de azul, árvores muito verdes cheias de folhas novas, flores a desabrochar por todo o lado, brisas frescas que trazem a manhã, noites estreladas que mais parecem um espectáculo encomendado de fogo-de-artifício: a Natureza vibra e oferece-se despudoradamente ao prazer dos sentidos.

Enquanto o Inverno é recolhimento, encolhimento e timidez, a Primavera é começo, criação, explosão, expansão e, principalmente, descaramento. Tudo aparece, tudo se despe, tudo toma forma. Há uma vibração no ar que mexe com a líbido e dá vontade de sairmos aos beijos por aí fora.

Os elementos primordiais conspiram para dar connosco em doidos. A Água faz nascer o desejo e expressa todo o seu poder na primavera. O Fogo comanda as emoções e os fluidos necessários. A Terra denuncia as palavras e os pensamentos. O Ar (o meu elemento – tinha que ser...) mexe com a respiração, os músculos, o cheiro, a pele e os pêlos.