dezembro 04, 2011

Caos inaceitável

Há pessoas que acham que por mais que façamos, fizemos sempre pouco, mal e fora de tempo. Que criticam tudo e todos e a toda a hora. Que são incapazes de nos apontar uma única qualidade, mas não se cansam de nos enumerar todos os nossos defeitos. Que acham que, como tudo na sua vida foi 'by-the-book' desde o dia em que nasceram, acham que a nossa, por ser diferente, é um caos inaceitável. Que, como estabeleceram objectivos de vida curtos e obtusos e os atingiram (claro), acham que o resto dos mortais não pode, e não deve, querer voar mais alto, ou mudar de ideias e de objectivos a meio do caminho. Que, como a sua casa, a sua roda de amigos, o seu peso, o seu cabelo, o seu carro, os seus filhos e até o seu cão são perfeitos, acham que os outros não podem ter outros gostos. Que, como acham que os outros estão em baixo, não acham nada melhor do que transformar isso numa nova missão, mas da maneira errada: criticando constantemente e dando ordens, cobrando sempre a ajuda que dão e dando aquilo que querem, nunca aquilo que lhes é pedido. Pior, não percebendo, por que ‘se esquecem’ de que já tiveram momentos menos bons, a ajuda que lhes foi dada nesses momentos. Ao mesmo tempo fazem acusações exactamente do contrário, quando aquilo que lhes demos foi exactamente aquilo de que mais precisaram, e toda a gente o percebeu menos eles. Ainda bem que sou como sou, este caos inaceitável.

Cortar o tempo

«Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante,
vai ser diferente.»

(Carlos Drummond de Andrade)