agosto 27, 2008

À laia de despedida

O que a Jubileide me disse hoje na depilação:

"Meu Deus, seu couro é tão fino!"
PS - Ainda vou ter saudades disto.

agosto 25, 2008

Última semana

Já enchi três malas só com tralha. Uma delas só tem livros, e deve pesar o mesmo que um elefante bébé, mais coisa menos coisa. Os livros que ficam (mais de cem) dei-os ao Edcarlos, um professor da escola primária local e irmão de um funcionário nosso, a única pessoa num raio de 100 km para quem um livro é mais do que combustível para acender uma fogueira. Veio cá duas vezes a casa e, em vez de olhar para a televisão ou para a aparelhagem, como todos os outros, dei com ele embevecido, com um brilhozinho nos olhos e a sorrir até às orelhas, a olhar para a minha estante, de cabeça de lado a ler os títulos e a dizer "ahhhh... tantos! E eu que só tenho sete... Olha, José Saramago!" Ganhou-me logo ali. Prometi dar-lhe todos os livros que não levasse e que podia pedir-me emprestados os que quisesse, e ele quase chorou. Nunca pediu nenhum, acho que por vergonha. Uma pérola. Fiquei de boca aberta quando ele me disse que na única livraria que existe em Parnaíba (uma cidade com 80.000 habitantes e 3 universidades...) só há porcarias - porque é absolutamente verdade, mas eu achei que mais ninguém tinha dado por isso.

Enchi mais duas malas com o todo o tipo de quinquilharia que já anda atrás de mim há anos (como milhões de fotografias, por exemplo) mais a que se junta inevitavelmente ao fim de 9 anos numa casa, e que sem a qual não vivo.

Paizinha1Dei mais de metade da nossa roupa e dos sapatos à Paizinha, que, à parte o desgosto, achou que lhe saiu a sorte grande. Também levou tecidos, a aparelhagem, o secador de cabelo, uma excelente, mas velhinha, Pentax que eu já não uso, o liquidificador, a batedeira, a varinha mágica (ela chama-lhe pau mágico), headphones, metade do stock da despensa e da arca frigorífica, roupa de cama e banho, tachos e panelas boas, carteiras, uma mesa com quatro cadeiras, etc. Quase parou de chorar, coisa que não consegue estar mais de meia hora sem fazer desde que eu lhe disse que volto para Portugal de vez, tadinha. Deixei-a com emprego certo e bem pago: fica cá em casa, com o inglês que nos comprou a fazenda, que se baba com os cozinhados dela - e que também já percebeu que, se a tratar mal, EU venho cá e trato-lhe da saúde. E dei-lhe dinheiro - mas obriguei-a a depositá-lo a prazo para que o bêbado do marido não o gaste todo num mês, além de a ter instruído para não lhe dizer quanto foi. A ida com ela ao banco para abrir uma conta, com hora marcada com o gerente, o Dôtô Beto (juro!), ela toda bem vestida e eu de chinelos (o costume...) foi um espetáculo. A expressão de orgulho dela - o gerente tratou-a por Dona Maria da Paz - pagou-me o dia. Aqui no povoado ninguém, mas ninguém mesmo, tem uma conta bancária. Ficou a rebentar de orgulho e morta de pena porque não pode contar a ninguém.

Solenemente, disse-me que, se puder, assim que os filhos mais pequenos estiverem encaminhados na vida, vai ter comigo a Portugal. Diz que não quer nada, que trabalha para mim de graça, que só quer um canto para dormir e a chance de aprender a cozinhar com a Dôna Rosa, empregada da minha família há décadas, actualmente em casa da minha irmã mais velha, e heroína da Paizinha. Por mim pode ir. É das poucas pessoas (ou a única) 100% sérias e trabalhadoras que eu conheci aqui. Tratou-me da casa e dos cães por quase 9 anos sem um reparo, cozinha ma-ra-vi-lho-sa-men-te e é um amor de pessoa. Confio tanto nela que lhe dei o código do meu multibanco e a mando levantar dinheiro por mim - bolas, o banco fica a 30 km! Recomendo-a sem reservas.

Bem, ainda falta arrumar a roupa. Uff!!!!!!!

agosto 20, 2008

O país do Carnaval #2488

Além do Ronaldinho, há mais fenómenos no Brasil.

Em menos de um ano, o Lulinha (Fábio Luís de sua graça), filho do presidente Lula, deixou de ser Monitor no Zoológico de S. Paulo, onde ganhava cerca de 600 reais, para se transformar um fenómeno no mundo da alta finança brasileira.

Ao tentar explicar o tremendo sucesso do seu filho, cujo enriquecimento é um caso raro (eu diria único!) no mundo dos negócios, o presidente Lula disse: "Deve haver um milhão de pais reclamando: 'porque meu filho não é o Ronaldinho?' Porque nem todo mundo pode ser o Ronaldinho!"

E há mais. Um ano depois, Lulinha comprou uma fazenda de gado por R$ 47 milhões de reais - pagos em cash - a qual, por coincidência, claro, foi a primeira a receber o Certificado de Exportação de Carne para a UE... O ex-proprietário da fazenda é um dos "maiores produtores de gado nelore do Brasil e vendeu, de porteira fechada, a referida fazenda pela bagatela de 47 milhões de reais".


Eu se fosse brasileira estava tããããão orgulhosa!!!!

agosto 19, 2008

Viagens a fazer...

... ainda em Setembro;


... talvez em Outubro;





... e provavelmente em Novembro, com a M'Ana.



(nada mal, hein?)

agosto 18, 2008

Baby fashion







A Piranha Baby é uma marca de roupa para bébés que faz t-shirts e bodies para bébés in. Vou comprar um body cor-de-rosa para a minha "sobrinha" Benedita, que nasce em Outubro.

agosto 13, 2008

Árvores já plantei...

... às carradas, filhos vai-se fazendo por isso, só me falta escrever um livro. Ou acabá-lo, melhor dizendo, já que, como quase toda a gente, tenho umas páginas alinhavadas escondidas em pastas secretas do meu PC, a que eu chamo pomposamente "o meu livro".

No seu excelente Pronome Possessivo, a Rita Ferro dá-nos uma excelente check-list para "escritores" de trazer por casa como eu - e não só.


Comece hoje a escrever o seu livro
1. Ponha o telemóvel e a alma no modo de silêncio.
2. Comece a escrever uma linha e siga sem grandes preocupações gramaticais ou semânticas, quase maquinalmente, como um sonâmbulo, ainda que a escrita lhe pareça deplorável e a ideia precária.
3. Com o tempo o próprio livro «cuspirá» o que é fraco e aproveitará o que é bom - ordenando-lhe a cortar e a deitar fora o que está a mais. Obedeça sem pieguices.
4. Não se apegue ou afeiçoe a nada do que escreve. Até lhe provarem o contrário, tudo o que vc escrever é lixo - ficámos entendidos?

Por outro lado, que não seja nem o excesso de perfeccionismo nem o sentimento de inferioridade tão típico deste país a desencorajá-lo.

OUVIU BEM, SEU PORTUGUÊS TÍPICO?

Você dispõe das mesmas 23 letras do alfabeto que tinha o Shakespeare ou o Camões. Com elas pode escrever uns (novos) lusíadas, divulgar uma vacina, conquistar um amor, travar uma guerra, fazer uma revolução, deitá-las fora, ou...

ESCREVER UM ROMANCE.
(...)


Leiam o resto lá. Vale a pena.

agosto 12, 2008

Vivo com...

... o Bill Gates da alta finança e não sabia!

Sim, que não são só os olhos verdes, o corpinho em "V" (eh eh eh), o óptimo coração e o péssimo génio! O moço faz-se no mundo dos negócios!

Depois conto.

agosto 08, 2008

Olimpíadas? Baaaaah...


Mas quem é que não gosta de samba e mulatas de bikíni??? Estes chineses são loucos. Aqui.
PS - Este post tinha DOIS erros gramaticais graves e ninguém me corrigiu??

agosto 05, 2008

Manifesto


Este blog nunca foi, não é e nunca vai ser uma democracia. Nele vigora, como sempre vigorou, uma total liberdade de expressão - da minha parte, obviamente.

Critiquem-me, insultem-me, be my guest - ou provem que estou errada. Mas não se esqueçam de que esta é apenas a opinião de uma emigrante que, não por acaso, vê concordância em todas as pessoas que tiveram a mesma experiência - as cujas, obviamente, têm efectivamente dois dedos de testa.

Vai haver consequências. Eu sei. O Capitão-Mor, meu colega de sina, fez o mesmo há uns tempos atrás e teve-as. Mas ele, apesar de cáustico q.b., foi extremamente bem educado (demais, na minha opinião) e acredito que a sua prosa técnica e elegante desmotivou a maioria dos seus críticos. Não será o meu caso. Como se diz no meu Ribatejo, tenho o coração um metro fora da boca. Por conseguinte, desde já peço desculpas à minha irmã, que mantem uma vastíssima rede de amigos brasileiros que são, obviamente, honrosas excepções à regra e, desculpem dizê-lo, precisamente os que a confirmam.

Abaixo transcrevo parte de um mail que mandei a uma grande amiga minha há uns meses atrás. É da falta dela, e/ou de gente como ela, que me queixo. Passado quase um ano, e a menos de um mês de me ir embora definitivamente do Brasil depois de quase oito anos, olho para trás e vejo, sem surpresa, que nenhum dos meus sentimentos mudou - obviamente porque as circunstâncias que os causaram também não mudaram.

aspas1


Olá, P. (...)

Desculpa a ausência, mas tenho andado numa roda viva com um cão adoentado, camarão que não cresce, ração que chega com uma semana de atraso, luz que falta 24 horas seguidas (...), tudo ao mesmo tempo. Enfim, o divertido dia-a-dia de quem anda cá fora a lutar pela vida.

Mas tá-se bem, àparte as dificuldades, que têm sido muitas e variadas. Pelo menos já tomámos a decisão conjunta e definitiva de desandar e ir para aí sofrer como vocês com a inflação, a burocracia (se vocês acham que há burocracia aí, experimentem aqui), o desemprego generalizado, etc. Nem que seja para variar de cenário, que aqui sofre-se com a incompetência como profissão, a desonestidade como ambição, os calotes como desporto, a lei como piada, pois só é cumprida para servir os interesses de quem paga mais por isso, os complexos de quem não é “europeu” em relação aos que o são, os preconceitos de ser estrangeiro - e rico, por analogia (o que, por sua vez, isenta automaticamente um brasileiro que se preze de ter que pagar o que compra e/ou deve - e esta moral distorcida é, talvez, o que me me torna mais insegura neste país – como é que se vive sem normas?!).

As coisas que gosto aqui? O clima, o meu alpendre, o espaço que tenho e que me permitiria ter 20 cães e 10 cavalos se me apetecesse, as viagens de barco pelo rio, a incrível facilidade com que tudo cresce e o luxo de ter uma empregada 8 horas por dia e 6 dias por semana que me custa praticamente nada. E também a música, fantástica. E mais nada. É triste conseguir resumir o melhor de um país em exactamente 61 palavras, não achas? Ainda mais quando usamos adjectivos, pronomes e outras ajudas gramaticais. Não consigo não pensar: se tivesse feito uma "check list" esta não conteria mais de 7 tópicos...

Estou cá há 7 anos e o meu círculo de amizades resume-se, mal e porcamente, a 2 portugueses e respectivas gaijas (que eu aturo por deferência), 2 escoceses (graças a deus ainda sem gaijas), um casal de belgas, a minha empregada Pazinha, que adoro incondicionalmente, mas cujo marido, por outro lado, me dá uma trabalheira desgraçada, e uma alemã que ainda não decidi se é porreira ou se já está contaminada pelo namorado inevitavelmente brasileiro. E é só. Não fiz um(a) amigo(a) brasileiro(a), à excepção talvez da X., razoavelmente viajada e civilizada, mas para quem eu normalmente não tenho paciência para aturar porque, apesar de ser óptima pessoa (e por isso se distinguir dos habituais cravas), não tem grande interesse intelectual. Os meus dias são uma sucessão de:

  1. decidir o que fazer para o almoço e para o jantar;
  2. ver televisão;
  3. ler;
  4. escrever (pouco);
  5. brincar com os bichos e, eventualmente, dar-lhes banho;
  6. inventar hobbies parvos para ocupar o tempo, tais como (e isto é só uma pequeníssima amostra dos extremos a que já cheguei...) ponto cruz (iniciais em roupa de bébé que depois dou a quem precisa); bijuteria (este vai ficar porque me dá imenso gozo), pintura (decidi que precisava urgentemente de um curso técnico e parei, que remédio...); crochet (pegas de cozinha e pouco mais); tricot (camisolas?, num clima destes?); jardinagem (tenho uma hortinha amorosa onde cultivo o que não consigo comprar aqui perto: alho francês, rúcula, courgettes, agriões, etc) e coleccionar receitas de cozinha da televisão (depois mando a Pazinha fazer, claro).

... e por aí fora. Consegues começar sequer a imaginar o deserto cultural em que estou metida? Agora multiplica por 100 e talvez chegues perto. Trouxe um monte de livros para cá das três vezes que fui a Portugal em sete anos – há uma única livraria em Parnaíba, mas o que consegue lá é Dan Brown, John Grisham, auto-ajuda e espíritas (aaaargh!) – e, por mais que eu goste de Fernando Pessoa e Florbela Espanca, já estou um bocadinho cansada de ler os mesmos livros. Preciso urgentemente de me actualizar. Não tenho internet em casa, só quando vou à cidade. Tá bem que tenho 60 canais de televisão, mas não tenho DVD, nunca tive: acreditas que a minha tia Lurdes, de 85 anos, teve que me ensinar a mexer no dela, quando estive aí há uns meses?? Continuo a ouvir a mesma música de sempre. Para mim, música contemporânea de qualidade ainda é Ben Harper. E o meu telemóvel não tira fotografias. Para quê?, tenho 5 máquinas fotográficas (vá lá, uma delas é digital...) que não uso. E ainda acho que cor-de-rosa é a cor da moda.

Há algumas coisas boas que resultaram deste meu isolamento forçado. Acho eu. Em alguns aspectos, estou mais tolerante com a humanidade em geral: parto do princípio de que todos os brasileiros são burros e portanto sou eu, como ser superior, que tenho que ter mais paciência. Noutros aspectos não: já não me levanto para dar lugar a velhinhas - se estivessem no meu lugar, jamais lhes passaria tal coisa pela cabeça - por uma gringa, jamais! -. Já não acho que pessoas estúpidas deviam ser mortas à nascença (pelo menos não todas), até porque isso acabaria com 95% dos brasileiros e era chato, convenhamos. Por outro lado, desenvolvi um “interesseirismo” que não tinha (a este nível de sofisticação, pelo menos) e que me dá um jeitão quando quero alguma coisa, porque já não tenho remorsos. Já não grito por dá-cá-aquela-palha (poupo-me mais), apesar de insultar alegremente cada idiota que se cruza no meu caminho e que tem o azar de me contrariar. Parto do saudável princípio (do meu ponto de vista, claro...) de que, se uma pessoa “dita normal” não for capaz de servir bem à mesa (i. e., de não se conseguir lembrar de um simples pedido de um café e um pão de queijo, e trazer, assombrosamente, depois de confirmar o pedido por escrito, uma Fanta de laranja e um pão com fiambre!), será incapaz de fazer alguma coisa bem feita pelo resto da vida, sendo que o melhor é desenganá-la logo de uma vez: assim não tira o emprego a alguém mais válido e pode logo entregar-se assumidamente à vagabundeagem profissional - ocupação, obviamente, para a qual nasceu. Bónus: estou altruisticamente a fazer um grande favor à sociedade brasileira, ao livrá-la de um idiota, ladrão, inútil e incompetente fardo.

Estou mais sarcástica? Nããããão... estou mais velha, infinitamente menos paciente, absurdamente menos tolerante. Acredito firmemente que o Grande Povo Português é o mais trabalhador, simpático e honesto do mundo. Acho que os brasileiros deviam ser todos mortos à nascença, à excepção talvez das putas (excelentes profissionais: o talento é nato) e dos publicitários (esta é em tua honra). Sem ofensa - e por seres quem és, tenho a certeza que, pelo contrário, darás uma valente gargalhada - concordarás comigo que as duas profissões se tocam na área da "sedução"...

Bom, para teres uma ténue idéia do que eu estou feliz por viver nos trópicos, acho que isto deve ter chegado. Cenas dos próximos capítulos: como tentar criar camarão num país onde aparece um vírus desconhecido no planeta, e onde todos, inclusivamente o governo, fingem que "no pasa nada", e não dar em doida.

Beijos grandes, Mad (literalmente!) aspas1

Rititi


Se eu tivesse que fazer uma lista de quem me consegue fazer rir até às lágrimas, esta menina estaria seguramente no top 3.